Santinha era uma menina legal. Quieta, inteligente, estudiosa, às vezes meio nerd, mas que gostava de beber com cautela. Bonitinha. Nada demais. Não chamava atenção quando entrava em um bar, nem fazia o estilo Barbie Girl, mas, vá lá, no fim da festa não era eleita para a frase “guardanapo vira bolo”.
Sua vida era se concentrar em entender as palavras. Estudava Letras na faculdade e queria entender todas as subjetividades de subjuntivos e vírgulas. Toda a literatura era pano de fundo para a ver as palavras e entender todo o significado por trás delas. O desenho da letra “s”, por exemplo, é uma forma misteriosa que chama a atenção e, ao mesmo tempo, esconde o que há no som e no seu significado.
As conversas para ela eram uma forma de ver o mundo. Nunca tinha ido à Europa, mas sabia todos os detalhes sobre as noites mais undergrounds de Londres. Entendia profundamente sobre perfumes, conhecia diversas peças teatrais, e podia discutir de igual para igual sobre a Guerra Fria com um historiador, eu acho. Tudo através de conversas. Não que ela expusesse isso para os outros, mas tinha poder para isso.
Com toda esta concentração ela não conseguia entender o que a pessoa que mais lhe interessava falava. Ele ficava sempre de lado das rodas observando, e quando pronunciava alguma coisa, parecia ter sido dita em outro língua para Santinha. Incrível, mas era assim. E eu acredito até hoje que ele não a entendia também.
Apesar de todas as tentativas fracassadas, o olhar fazia ela entendê-lo um pouco. Era uma coisa romântica, quase impróvavel de se consertar. Ela entendia muito de vários assuntos e era capaz de ter uma conversa terapêutica com alguém, mas aquele ‘um’ seria sempre um enigma.
A solução arranjada foi construir um dicionário de olhares. Já que aquele estrangeiro não conseguia comunicar-se através das palavras, a única forma seria a serenidade transmitida pelos olhos.
Não deu certo.
Eles continuam tentando se fazer entender. Às vezes gritam palavras incompreensíveis um para o outro, mas no final das contas o olhar mantém alguma coisa.


