Ella era uma bela mulher. Uma mulher bela no estilo “Dez dicas para você ser independente sem deixar de ser sexy”, como se ensina nas revistas. Tinha bom humor e inteligência perspicaz. E unhas vermelhas. Na maioria das vezes cansava quem tentava travar um duelo de piadas mais blasé do universo. Esse era seu maior esporte. Te detonava, mas você a amava, por mais que saísse dali ‘mini’ humilhado.
Ela passava uma idéia de fortaleza, mas não poderia ser um porto seguro. Nem todo mundo entendia, mas era o jeito dela. Ouvia-te, mas não poderia deixar de te apunhalar com verdades que Ella mesmo não escutaria. Era mais objetiva, direta nas resoluções, mais homem na hora de conversar sobre problemas dos outros e Della.
Ela era uma história de Nelson Rodrigues encarnada, mas bem mal contada por mim. Uma injustiça a ela. Ella tinha três romances: a noite, o compromisso e o amante. E não tinha nenhum, porque nada pertencia à Ella. Seu altruísmo egoísta era fascinante e detestável. Era Ella desprendida “dessas coisas materiais”.
Mas…chega de definir Ella. Ela tem que ser contada, e detalhada com contexto político-socio-ambiental-antropofágico ideal.
Um dia se viu num beco sem saída. O compromisso não esperou, a noite se tornou uma rotina e o amante era um amigo. E no alto de seu salto quinze, ela não decidiu por nada. Comprou um chocolate, um cigarro, e ajeitou as meias que escorregavam pela perna.