Arquivo para janeiro, 2010

Uma conversa entre dois peões

-Só um instante que eu vou falar com a minha amiga que estava me esperando. Ela tá bolada.

Eu esperava ela há meia garrafa de Brahma.

Quando cheguei no bar, olhei ao redor. Estava um pouco vazio. Uma mesa com umas mulheres feias, outra com dois amigos e uma, a que mais me chamou a atenção, com uns caras por volta dos 35 anos. Eram músicos, provavelmente daqueles que nunca vão ser sucesso mas não abandonaram o sonho da adolescência.
Provavelmente nada, com certeza para a mídia eles são o fracasso.

Sentei perto da porta porque quando o bar enche fica abafado. O garçom veio e eu pedi uma Brahma. A partir daí olhava desinteressada para a televisão, e apreensiva para a rua. Minha amiga tem fama de chegar horas atrasada, quando chega. Acho que pensavam que eu estava esperando algum rabisco, e a minha vontade era dizer que eu só estava esperando uma amiga atrasada. Me desacostumei a esperar pelas pessoas.

Quando ela chegou, eu a esperava há meia garrafa de Brahma.

No início era mais uma daquelas conversas-relatório em que você conta e ouve memorandos feitos para atualizar a amizade. Nada demais. Explicações e risadas sobre coisas que a gente não presenciou, ou pelo menos não inteiramente. No fim a fala mudou. Sutilmente protagonizávamos uma conversa entre dois peões que, por percalços da vida, ou por preguiça, deixaram de lado projetos de vida.

Eu quero escrever um livro, mas não sei tanto sobre o assunto. Eu quero ter um blog. Eu quero trabalhar em produção. Eu quero ser escritora.

E depois disso tudo percebi que deveria deixar de ser tão exigente comigo mesma, e parar de apagar meus textos para publicar em um lugar que ninguém lê. Nem eu.

[Originalmente escrito em 15/08/2009]

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Dizem que sou louco por eu ter um gosto assim

Entre a paixão arriscada e a segurança desapaixonada, o que você escolheria?

Eu escolhi para o início de 2010 o sonho de trabalhar em uma redação de jornalismo. Uma paixão arriscada. Apenas seis meses de estágio, ganhando um salário menor, mas muita expectativa. Cheguei aos 45 do segundo do tempo onde eu sempre sonhei, desde que decidi fazer jornalismo.

Não foi fácil decidir por este sonho. De um lado surgia a grande oportunidade que eu corri para conseguir, do outro a carteira assinada no meu atual local de trabalho. De um lado perder dinheiro, do outro ganhar. De um lado a certeza de terminar a faculdade com um emprego nas mãos, do outro a incerteza do que fazer depois da beca e do diploma na mão. Quem não ficaria tonto com uma situação dessas?

Depois de dias sem dormir, aluguel do ombro do namorado e várias sessões de terapia, decidi arriscar. Tenho apenas vinte anos e toda uma vida pela frente, uma decisão assim pode dar o ponta pé na minha carreira e na placa da avenida.

Depois da escolha a ansiedade e a felicidade só aumentaram. Até hoje.

Senti muito mais do que um frio na barriga, uma tempestada de neve no estômago depois que li o e-mail de uma amiga agora jornalista:

“Subject: Ajudinha

Olá, amores.
 
Meu estágio acabou e eu estou à procura de um emprego. Se vocês souberem de alguma vaga, por favor, me avisem, ok?
 
Muito obrigada, gente.”
Justo ela.
Minha amiga de faculdade mais nerd, uma das melhores jornalistas da minha leva, com uma mão na frente e a outra atrás. E eu aqui recusando emprego.
Juro que na hora quase corri e pedi para ser efetivada, mas algo dentro de mim ainda diz que isso vai me render bons frutos. Quem sabe eu ainda conto isso bebendo da caneca do Jô Soares?
Os dados e as palmas foram lançados para 2010.

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