-Só um instante que eu vou falar com a minha amiga que estava me esperando. Ela tá bolada.
Eu esperava ela há meia garrafa de Brahma.
Quando cheguei no bar, olhei ao redor. Estava um pouco vazio. Uma mesa com umas mulheres feias, outra com dois amigos e uma, a que mais me chamou a atenção, com uns caras por volta dos 35 anos. Eram músicos, provavelmente daqueles que nunca vão ser sucesso mas não abandonaram o sonho da adolescência.
Provavelmente nada, com certeza para a mídia eles são o fracasso.
Sentei perto da porta porque quando o bar enche fica abafado. O garçom veio e eu pedi uma Brahma. A partir daí olhava desinteressada para a televisão, e apreensiva para a rua. Minha amiga tem fama de chegar horas atrasada, quando chega. Acho que pensavam que eu estava esperando algum rabisco, e a minha vontade era dizer que eu só estava esperando uma amiga atrasada. Me desacostumei a esperar pelas pessoas.
Quando ela chegou, eu a esperava há meia garrafa de Brahma.
No início era mais uma daquelas conversas-relatório em que você conta e ouve memorandos feitos para atualizar a amizade. Nada demais. Explicações e risadas sobre coisas que a gente não presenciou, ou pelo menos não inteiramente. No fim a fala mudou. Sutilmente protagonizávamos uma conversa entre dois peões que, por percalços da vida, ou por preguiça, deixaram de lado projetos de vida.
Eu quero escrever um livro, mas não sei tanto sobre o assunto. Eu quero ter um blog. Eu quero trabalhar em produção. Eu quero ser escritora.
E depois disso tudo percebi que deveria deixar de ser tão exigente comigo mesma, e parar de apagar meus textos para publicar em um lugar que ninguém lê. Nem eu.
[Originalmente escrito em 15/08/2009]